terça-feira, 15 de março de 2011

E quem disse que ia ser fácil?

Basta viver o primeiro “não” com seu filho para entender que a tarefa de educar é longa e, muitas vezes, bem difícil. Para o terapeuta espanhol Emilio Pinto, o importante é dispor de boas ferramentas


Quais são os pré-requisitos para dar aos filhos uma boa educação? 1) Querer fazer. 2) Saber o que está fazendo. 3) Entender que dá trabalho. 4) Estar ciente que o resultado não dependerá apenas do que os pais estão fazendo. Parece simples, enumerado assim de 1 a 4 – nossa, só quatro passos! –, mas vocês sabem que os desafios são gigantescos e que não são poucas as vezes que a vontade de desistir aparece.

Filhos Difíceis de Educar, lançado recentemente pela Editora WMFMartinsFontes, vai fazer você pensar. Primeiro porque em linguagem acessível e direta passa por diversas situações para abordar os tantos dilemas que educar um filho pode trazer. Depois, porque há casos relatados de fazer qualquer pai e mãe estremecer. Guardadas as devidas proporções, o espanhol Emilio Pinto, terapeuta e especialista em transtornos de comportamento, ex-presidente da Fundación Internacional O’Belén (que ajuda na formação de menores em situação de desamparo social, na Espanha) dá dicas que vão encher você de ferramentas e de vontade de tentar sempre mais. Afinal, o futuro do seu filho está em suas mãos.

De início ele já avisa: “Depois de minha experiência de mais de 15 anos com crianças e com famílias e após a leitura de inúmeros estudos sobre psicologia, genética e ambiente social, cheguei à conclusão de que os filhos são imprevisíveis: uns são difíceis e outros não. Não se sabe quanto pode ser atribuído à genética e quanto é decorrente do ambiente social. Mas está demonstrado que, se nutrirmos consideravelmente sua inteligência, eles poderão mudar. Essa mudança depende sobretudo da educação que vão receber”. A seguir, trechos do livro para você degustar e partir para a reflexão. E já.

Demonstrar amor

Nenhuma criança do mundo deveria ir para a escola ou para a cama sem dar um beijo em seu pai e em sua mãe (e por que não no resto da família?). Toda criança deveria ter alguém para assoprar sua ferida quando se machuca, abraçá-la quando chega em casa e beijá-la quando está deitada. E quando são adolescentes é preciso continuar com as abraços, mesmo que já não queiram nos dar beijos.

Saber esperar

Precisamos ensinar nossos filhos a esperar. Se não os ensinarmos a esperar sua vez, vão furar a fila. Se não os ensinarmos a ter paciência, não serão pacientes nem com eles mesmos nem com os outros.

Muitas crianças interrompem a conversa dos mais velhos sem que ninguém tenha pedido sua opinião e há pais que dizem: “É que ele tem déficit de atenção com hiperatividade”. É difícil acreditar que alguém defina com essas palavras uma criança mal-educada. Obviamente há crianças hiperativas e com déficit de atenção, mas também nesses casos elas devem ser ensinadas, e ainda com mais afinco, que precisam saber esperar. É necessário ensiná-los desde bem pequenos a esperar que o pai termine de falar ao telefone ou conclua a leitura de um capítulo de um livro para depois brincar com ele. Aprender a esperar tem muito a ver com aprender a escutar, com controlar nossos instintos e até com saber aceitar o fracasso como parte da aprendizagem.

Pelo direito de ficar triste

As crianças têm o direito de ficar aborrecidas com os pais. Isso faz parte do processo educativo. Toda criança precisa de um adulto amorosamente firme ao seu lado.

Pais escravos...

“Não precisa arrumar a cama, deixe que eu arrumo para você”, “não precisa fazer a tarefa, coitadinho, você está cansado, depois eu faço para você”, “não se preocupe, filho, eu vou buscar você na hora e no lugar que você quiser”. E, assim, de um dia para o outro, um se acostuma a servir e o outro a ser servido. A verdade é que não é de um dia para o outro, é porque confundimos paternidade com servilismo. Servir aos outros e servir aos filhos é uma tarefa nobre, mas os pais devem continuar sendo pessoas apesar de ter filhos; ou seja, devem continuar crescendo, formar-se, trabalhar e até se divertir, sem nenhum remorso.

Para que essa síndrome de serviçal não acarrete consequências no futuro, convém ir dando responsabilidades aos filhos na própria casa: pôr ou tirar a mesa, regar as plantas, levar o cachorro para passear... Um dos maiores perigos dos pais é considerar o filho sempre pequeno demais para ajudar.

Tempo de qualidade

Quando falamos de tempo, a sociedade pensa em termos de quantidade: mais quantidade de tempo é igual a mais educação. Não é verdade: é a qualidade do tempo que educa.

Os pais não devem ter a consciência pesada por ficarem pouco tempo com os filhos. Seja muito ou pouco, o importante para o filho é que seja um tempo para educar, em que a diversão tenha lugar, mas também a exigência. Como fazer isso?

Aproveitar para se conhecer. Falar-lhe sobre tudo o que puder: da infância, da família, do mundo. E escutar tudo o que os filhos têm a dizer: sobre seus amigos, suas ideias, seu mundo.

Fazer coisas juntos: praticar esportes, tocar ou escutar música, cantar, plantar uma árvore, cuidar do jardim, preparar um bolo... aproveitar para lhes ensinar coisas que não vão aprender na escola ou com os amigos: brincar com a lua, jogar burro, adivinhar palavras, medir, madrugar, comentar um filme, construir um invento, pintar seu quarto...

Castigos

Crianças são crianças. Tentarão de todas as maneiras fazer das suas e encontrar nossos pontos fracos. Elas sabem que o castigo pode ser negociado e por isso convém levar em conta algumas recomendações:

- Nunca devemos dar castigos motivados pela raiva. O melhor é que os castigos sejam reparadores, tenham um porquê.

- O castigo deve ser cumprido.

- Não se deve recorrer a castigos tão longos que possam ser esquecidos.

- Não abusar do castigo. Se a criança fica todo dia durante três horas de castigo no quarto, ela aprenderá a se divertir durante este tempo.

Bater, nunca!

Sem a razão, e a razão chega na idade adulta, nosso instinto de sobrevivência nos leva a defender nossos brinquedos com unhas e dentes, nossa posição com palavrões e nossas vontades batendo portas ou recorrendo a tapas. Se alguém grita, o lógico, em defesa de si mesmo e entre iguais, é gritar mais alto. No entanto, pais e filhos não são iguais. Os pais são (ou devem ser) mais maduros ou mais sensatos que os filhos. Se eles nos xingam, não devemos xingar; se batem uma porta, não podemos derrubá-la e, se nos batem, não devemos bater neles com mais força.

Se o controle verbal não funciona, deve-se passar para o que chamamos de contenção física: prender as mãos, as pernas ou o corpo da criança para impedi-la de agir. Não podemos deixar uma criança nos bater; se aceitamos isso, estamos dizendo que essa forma de comunicação é permitida. Com essa reação agressiva também estaríamos transmitindo que expressar a raiva é uma opção válida. Além disso, essa é uma atitude infame.

O silêncio é um dos gritos mais fortes, e conter a agressão não é bom apenas para o filho, mas também para os pais, que assim não correm o risco de ficar com ódio de si mesmos.

O lar que educa

Comprar uma casa pode ser um investimento, mas um lar não tem preço. Na verdade, um lar não pode ser comprado, as pessoas precisam construí-lo. Cada lar deve conter a história da família, mesmo que os decoradores não gostem das lembranças ou dos objetos familiares. Considere importante o que é importante para seus filhos. Procure um bom lugar para o primeiro desenho, para sua foto na escola, para a foto da avó... mesmo que não combinem com as cortinas.


Fonte:http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI174173-10469-2,00-E+QUEM+DISSE+QUE+IA+SER+FACIL.html

Um comentário:

disse...

muito boa a materia!
beijos